Tristeza!
Não poder estar aí neste momento com vocês, dentro desse cinema, em frente a
esta tela, na 4ª Mostra de Cinema Brasileiro em Lisboa. O convite para mim
foi uma honra. Cercada de prazeres.
Prazer de ver os meus filmes mais recentes diante da plateia que, não me
conhecendo bem, conhece-me perfeitamente. Posto que brasileiros e
portugueses têm o mesmo coração. Prazer em conhecer vocês todos, prazer
imperdível que perco! Os diretores e os atores, o pessoal organizador da
Mostra, a turma da Embaixada, tanta gente gentil e valorosa. A quem nesse
momento estendo a minha mão em forte aperto fraternal.
E os prazeres do lugar! Subir e descer as ladeiras da Alfama, cruzando com
os fadistas que se revezam nos restaurantes. E também, por que não, ir no
outro dia àquele canto recôndito onde os especialistas dizem que é onde está
o melhor do fado. Olhar a Lisboa antiga, com suas constantes surpresas
ancestrais. E também voltar às profundidades emocionantes do aquário onde
desce-se ao fundo do mar.
Rever amigos antigos e falar comovidamente sobre um dos últimos que se foi,
Solnado Raul, de tão grata lembrança. Confesso, não sou um viajante. Viajei
pouco em minha vida. Talvez porque eu saiba que de alguma forma tudo está em
tudo. E Lisboa em mim.
Mas desta vez, sou obrigado a confessar que essa temporada na Mostra me era
um sonho, que não conseguirei realizar por causa de um simples, mesquinho,
mínimo, vil, vilão, inoportuno, desgraçado e puto de um vírus.
Como os senhores sabem, somente na generosa língua dos poetas, a Língua
Portuguesa, “puto” é “menino”. Porque aqui é puto mesmo.
Sei que o Estoril é longe para os lisboetas irem a qualquer hora. Mas se
acaso forem, por esses dias, joguem o que puderem no pleno Preto 4.
Provavelmente ganharão uma fortuna. Que seria minha. Se não fosse o verme
sem mãe, miserável e puto.
Porém esqueçamos mágoas e saudades e desse momento em diante, aproveitemos a
Mostra como se eu estivesse aí. Olhem bem, com algum esforço e dedicação,
poderão até ver-me sorrindo, no palco. E ouvirem-me apresentando o filme de
hoje, meu penúltimo completado, “Juventude”.
Não gosto de falar dos filmes... Prefiro que falem por si. Para isto são
feitos: “Juventude”.
Houveram títulos anteriores: “A Ceia dos Cardeais”, sim, Júlio Dantas por
que não? “A Última Juventude” e, finalmente, “Juventude”. Porque fala de uma
que não se pode calar dentro do peito. Que existe sempre, malgrado nós. A
velhice é para os outros, sendo a esperança a última que morre, porém bem
depois da libido. “Juventude”, o filme que vamos assistir, reuniu 3 grandes
amigos na vida real e mais uma equipe de filmagem em uma única locação, e o
filme foi feito em menos de três semanas, gastando 400 mil dólares. E nem
mais um tostão, posto que não tínhamos. Direi apenas que é um filme sobre a
Amizade. E mais que isso, sobre a Perplexidade. Ou o espanto, sentimento
criador de toda filosofia.
Quanto ao Júlio Dantas, continua pensando “Em como é diferente o amor em
Portugal”. Além disso, ainda direi que trata-se de um filme engraçado. Podem
rir, se quiserem. O humor é o único modo de se falar sério hoje em dia.
Na continuação da Mostra, serão exibidos mais 3 filmes da minha recente
lavra:
“Feminices” é uma palavra que não existe. Creio que inventei. Quando tinha
que botar o título em inglês, fui obrigado a recorrer ao meu amigo escritor
João Ubaldo. Que depois de muito pensar, concluiu que a melhor tradução
seria Femaleship, já que Femalehood seria excessivamente masculino. Este
filme foi rodado em duas semanas, em preto e branco e em cores, estourando
os fundos ao limite. É quase um documentário sobre o comportamento das
mulheres quando os homens não estão por perto. Sobre esta algaravia
deliciosa, esse ruído divino das mulheres, quando falam todas juntas, e elas
sempre falam todas juntas. A cena final, na beira da piscina, é cercada
pelos edifícios de Ipanema, com a presença do diretor que não acredita na
verdade das confissões que compõem o filme... Mas sem dúvida é uma
interessante cena. Sou um escritor sério, que olvida grandes esforços para
provar que não é. Por uma cortesia ao espectador.
A Mostra apresenta também “Separações” e “Carreiras”.
“Carreiras” é um malabarismo, com as bolas de baixo orçamento. No Brasil,
não dão dinheiro os filmes de baixo orçamento. A plateia, ou até mesmo a
crítica, somente se deixam agradar pelos atores midiáticos e grandes verbas
de lançamento, grande número de cópias, etc. Não é a razão suficiente para
que eu deixe de fazê-los. Baixo orçamento significa Alta Liberdade. Concede
a irresponsabilidade necessária para a feitura da Obra de Arte. “Carreiras”
é um roteiro contando uma fábula política sobre a forma de um quase monólogo
de Priscilla Rozenbaum, premiadíssima por esse papel. Fala com muita graça
da escala de valores éticos das profissões modernas. Do quanto ela depende
do contracheque que cada um recebe no fim do mês... Não percam “Carreiras”.
Em português sabemos que esta palavra tem 3 significados. As “carreiras” dos
profissionais, as “carreiras” de cocaína, e as “carreiras” da vida moderna
apressada. (A história se passa numa noite em que a personagem sorve ao
amanhecer sua décima sétima linha, como se diz aí). Uma longa noite brava
que termina nos cenários reais da boemia do Leblon e Ipanema, Rio de
Janeiro.
E “Separações”: É o meu melhor filme. Muita gente acha que o melhor é o
primeiro, o mais famoso, “Todas as Mulheres do Mundo”, feito 40 anos antes.
Mas discordo, absolutamente. A saga de amor entre Cabral e Glorinha é um
primor de humor e lucidez. Ganhamos muitos prêmios com “Separações”, que é
considerado de alguma forma pelos amigos uma espécie de Manual Clássico
sobre o assunto. Quem quer se separar, vai ver o filme e consulta.
Espero que estes filmes compensem de alguma forma minha falta aí. E olhando
o que escrevi, noto que há um certo português de Portugal no estilo desse
artigo. Tem sotaque, digamos assim.
Na certeza de que fui fartamente excessivo no tamanho desta apresentação, e
também na minha mania de autoelogiar-me, e com a confissão de que fiz ambas
as coisas de modo completamente intencional, deixo-os finalmente com
“Juventude” e meu coração.
Domingos Oliveira.
04 de novembro de 2009